Preços globais dos alimentos sobem em março e conflito no Oriente Médio pressiona custos de energia
Jornalista | Radialista | Comunicador Multimídia -
Segundo a ONU, alta moderada ainda é contida pela oferta de cereais, mas prolongamento do conflito pode elevar ainda mais os preços ao longo do ano e em 2027
Os preços internacionais dos alimentos registraram uma nova elevação em março, interrompendo um período de calmaria e apontando para uma tendência de altos custos em produtos básicos. Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), essa alta foi puxada, sobretudo, pelo aumento no custo da energia — uma consequência direta da intensificação do conflito envolvendo o Irã e outros países no Oriente Médio.
O indicador usado pela FAO para medir os preços de uma cesta de produtos alimentares no mercado global — que inclui itens como cereais, óleos, açúcar, carnes e laticínios — chegou a 128,5 pontos em março, marcando um crescimento de 2,4% em relação ao mês anterior. Esse movimento representa a segunda alta seguida depois de meses de estabilidade ou queda, sugerindo que fatores externos estão exercendo pressão sobre os alimentos negociados internacionalmente.
Especialistas explicam que os custos de energia influenciam fortemente o preço dos alimentos porque grande parte da produção agrícola moderna depende de combustíveis e eletricidade: tratores, máquinas de colheita, irrigação e transporte de mercadorias exigem energia, e muitos fertilizantes também são derivados de insumos ligados ao petróleo e ao gás natural. Quando esses custos sobem, eles acabam sendo repassados aos preços finais dos alimentos.
Outro fator que tem contribuído para a elevação dos preços é a instabilidade em rotas comerciais estratégicas, como o Estreito de Hormuz, por onde grande parte do petróleo mundial passa diariamente. Interrupções ou a simples ameaça de dificuldades nessa região aumentam o preço do combustível e elevam a percepção de risco nos mercados, refletindo em custos maiores para produtores e distribuidores de alimentos.
Dentro dos diferentes grupos de alimentos, óleos vegetais e açúcar registraram variações mais fortes em março, enquanto outros produtos — como certos tipos de cereais e carnes — também influenciaram o índice geral. Apesar disso, analistas da FAO afirmam que a oferta global de cereais ainda permanece ampla o suficiente para evitar uma disparada nos preços imediatos.
Mesmo assim, há preocupação de que, se o conflito no Oriente Médio se prolongar e os custos de produção continuarem altos, agricultores possam reduzir o uso de fertilizantes, diminuir áreas plantadas ou optar por culturas diferentes, o que poderia resultar em menor produção no futuro. Isso tenderia a reduzir a oferta global de alimentos e, consequentemente, pressionar ainda mais os preços ao longo de 2026 e até em 2027.
No caso do Brasil, essa dinâmica global pode ter reflexos diretos no bolso dos consumidores. O país, embora seja um grande produtor e exportador de muitos alimentos, também integra mercados que são influenciados pelos preços internacionais — especialmente em produtos que concorrem globalmente ou que dependem de combustíveis e fertilizantes importados. O aumento nos custos de energia e insumos agrícolas tende a pressionar os preços no atacado e varejo, podendo se refletir em produtos como óleos, açúcar, carnes e grãos no mercado interno. Isso pode contribuir para uma inflação mais persistente em itens básicos da cesta de compras das famílias brasileiras, especialmente em regiões onde o transporte e a produção local já enfrentam desafios logísticos.
Ao mesmo tempo, setores da economia brasileira ligados ao agronegócio podem se beneficiar de preços internacionais mais altos, já que exportadores podem obter receitas maiores. No entanto, esse efeito positivo para produtores nem sempre se traduz em alívio para os consumidores internos, especialmente em um cenário em que o custo de vida já está sob pressão por outros fatores econômicos.
A combinação entre energia mais cara, riscos logísticos e incertezas nas safras resulta em um ambiente de maior atenção para governos, produtores e consumidores, que precisam acompanhar de perto os desdobramentos do conflito no Oriente Médio e suas implicações para os mercados de alimentos em 2026 e além.
Com informações da Reuters / Agência Brasil / CNN e UOL
Foto: ilustrativa FreePik