Escassez de gado mantém arroba em alta e obriga frigoríficos a pagar mais pelo boi gordo
Jornalista | Radialista | Comunicador Multimídia -
Oferta limitada de animais para abate sustenta preços em várias regiões do país, mesmo com pressão da indústria, tensão internacional e consumo doméstico ainda enfraquecido
O mercado do boi gordo começou a semana com um cenário de disputa entre pecuaristas e frigoríficos, marcado por oscilações nos preços e negociações acima das referências em algumas regiões do país. A principal razão é a oferta limitada de animais prontos para o abate, que continua sustentando as cotações mesmo diante de pressões da indústria e incertezas no cenário internacional.
Analistas do setor pecuário apontam que a escassez de boiadas terminadas permanece como o principal fator de sustentação do mercado neste início de ano. Com dificuldade para preencher suas programações de abate, frigoríficos têm sido obrigados, em alguns casos, a elevar as propostas para garantir o abastecimento das plantas industriais.
Levantamentos de mercado indicam que as chamadas escalas de abate — que representam o número de dias que os frigoríficos têm de gado já comprado para o processamento — seguem curtas em diversas regiões, frequentemente próximas de cinco ou seis dias. Esse cenário aumenta a concorrência entre as indústrias e fortalece o poder de negociação dos pecuaristas.
A oferta restrita tem diferentes explicações. Muitos produtores optam por manter os animais nas fazendas aguardando preços melhores, enquanto as boas condições das pastagens em parte do país permitem segurar o gado por mais tempo antes da venda. Ao mesmo tempo, frigoríficos tentam reduzir temporariamente o ritmo de abate para alongar suas escalas e pressionar os preços da arroba.
Mesmo com essa disputa, as cotações seguem elevadas nas principais praças pecuárias. Em média, a arroba do boi gordo gira em torno de R$ 349 em São Paulo, cerca de R$ 344 em Minas Gerais, próximo de R$ 340 em Mato Grosso do Sul e Mato Grosso e pouco acima de R$ 330 em Goiás, valores que refletem um mercado ainda sustentado pela oferta enxuta.
Nas negociações mais recentes em São Paulo, referência nacional para formação de preços, o boi gordo comum aparece ao redor de R$ 347 por arroba. Já o chamado “boi-China” — categoria que atende às exigências sanitárias para exportação ao mercado chinês — pode alcançar aproximadamente R$ 350. Para fêmeas destinadas ao abate, os valores ficam em torno de R$ 335 por arroba para a novilha e cerca de R$ 325 para a vaca.
Além das condições internas do mercado, o setor acompanha com atenção o cenário internacional. As tensões no Oriente Médio aumentaram as preocupações com possíveis impactos nas rotas comerciais e na logística global, fatores que poderiam afetar o fluxo de exportações de carne bovina. Nos últimos dias, porém, sinais de redução das tensões trouxeram certo alívio ao mercado e reduziram parte das incertezas.
Outro elemento importante para o setor é o comportamento do dólar, já que as exportações representam parcela crescente da demanda pela carne bovina brasileira. A moeda norte-americana encerrou a sessão mais recente perto de R$ 5,16 após oscilações ao longo do dia, movimento acompanhado de perto pelos agentes do mercado.
Enquanto a arroba permanece em níveis elevados, o consumo interno segue limitado. No atacado, os preços da carne bovina mostram estabilidade, mas o valor ainda alto reduz a demanda das famílias, especialmente entre consumidores de renda mais baixa. Como consequência, parte do público tem migrado para proteínas mais baratas, como frango e ovos.
No comércio atacadista, os cortes permanecem próximos de R$ 20,50 por quilo no quarto dianteiro, cerca de R$ 27 no quarto traseiro e aproximadamente R$ 20,50 na chamada ponta de agulha.
Para os próximos meses, a expectativa do setor é de continuidade da disputa entre produtores e frigoríficos. Enquanto a indústria tenta ampliar as escalas de abate para conter as cotações, pecuaristas mantêm parte da oferta fora do mercado apostando em novas valorizações. Caso a disponibilidade de animais terminados continue restrita, analistas avaliam que o preço da arroba poderá permanecer elevado ao longo de 2026, mantendo a pecuária de corte em um período de maior rentabilidade para o produtor.
Com informações do Canal Rural / CNN Agro / CNA
Foto: Arquivo site Notícias Agrícolas